sábado, 19 de maio de 2012

A exploração da Amazônia e as drogas do sertão

Durante o primeiro século da Colonização, a região amazônica permaneceu praticamente inexplorada. Isso se explica em função dos interesses dos colonizadores portugueses, fixados principalmente no litoral açucareiro. Além disso, segundo os limites estabelecidos no Tratado de Tordesilhas, a maior parte do vale amazônico não pertencia a Portugal e sim à Espanha.

Na prática, porém, os portugueses e os bandeirantes, através das expedições de caça ao índio e busca de metais preciosos, foram penetrando no interior do Brasil e assim "vergaram a vertical de Tordesilhas", como escreveu um poeta. [...]

É assim que vamos encontrar, já em 1616, na foz do rio Amazonas, um estabelecimento português, o Forte do Presépio, origem da cidade de Nossa Senhora do Belém do Grão-Pará (atual Belém). A presença dessa fortificação portuguesa na foz do Amazonas explica-se sobretudo pelo objetivo de expulsar os franceses e outros estrangeiros que exploravam ilegalmente as riquezas da região - o que somente foi conseguido com a viagem de Pedro Teixeira, que, em 1637, subiu o Amazonas, alcançando Quito, no Equador. [...] por ocasião dessa expedição, Portugal e Espanha encontravam-se governados por um mesmo Rei, espanhol, devido à União Ibérica (1580-1640). Essa condição facilitou a expansão da Colonização portuguesa por terras que, de direito, pertenceriam à Espanha.

A conquista do Amazonas, de Antonio Parreiras

Somente na segunda metade do século XVII se iniciou, de fato, a exploração das riquezas do vale amazônico. E como isso ocorreu? Ocorreu devido à ação das Ordens religiosas. Sim, devido à ação dos sacerdotes, sobretudo jesuítas e carmelitas, embora houvesse também franciscanos, mercedários e outros. E qual foi a base econômica da ocupação da região? As riquezas naturais da floresta: o cravo, a canela, a castanha, a salsaparrilha e outras plantas medicinais, o tabaco, o algodão e, principalmente o cacau. São as chamadas Drogas do Sertão, isto é, todos os produtos da flora amazônica, que serviram de base para a exploração econômica e a conquista da região. Eram plantas medicinais e aromáticas, além de muitas espécies de cipós e raízes.

Esses gêneros naturais, além das madeiras e produtos da caça e da pesca, tinham grande valor comercial na Europa. As Drogas do Sertão eram semelhantes às especiarias do Oriente, que agora não eram mais comercializadas pelos portugueses, e sim pelos holandeses. E como fazer para localizar, colher e transportar pelos rios até os portos do litoral as Drogas do Sertão? Qual a mão-de-obra utilizada?

Ora, pense bem: quem conhecia a floresta, o difícil caminho dos rios amazônicos, nas épocas de cheia, os caprichos da correnteza, os lugares perigosos a evitar? Quem sabia exatamente onde encontrar as plantas e os gêneros nativos, e sabia colhê-los? Lembre-se de que, na floresta equatorial, as árvores, as plantas medicinais e outras encontram-se muito dispersas. Quem era exímio remador e possuía embarcações apropriadas à navegação dos rios amazônicos? Quem, desde muito tempo, dedicava-se ao extrativismo - à caça, à pesca, à coleta de frutos e raízes? Isso mesmo, você acertou! A mão-de-obra utilizada na coleta das Drogas do Sertão foi a indígena.

O caçador de escravos índios,  de Debret

E os padres e colonos se aproveitaram da mão-de-obra dos indígenas, que, numerosos na região, viram-se recrutados para a tarefa de modo violento ou "pacífico". Veja bem: não era muito fácil conseguir os índios necessários à exploração das Drogas do Sertão, pois eles resistiam aos colonizadores. Foi necessário organizar expedições militares, as tropas de resgate, que percorriam a região procurando índios e aprisionando-os. Entretanto, os indígenas aprisionados fugiam ou rebelavam-se, e começaram a surgir lutas contínuas. Tornava-se necessária uma maneira "pacífica" de recrutá-los para o trabalho da coleta de drogas. E quem se encarregou dessa tarefa foi a Igreja, através das Missões religiosas.

Os padres, sobretudo os da Companhia de Jesus, catequizavam e reuniam os índios em aldeias chamadas Missões. Nessas aldeias, os indígenas recebiam geralmente um lote de terra para cultivar: durante uma parte do ano, trabalhavam para o seu próprio sustento e o de sua família; e outra parte, na exploração das drogas. A coleta das drogas era uma atividade necessariamente nômade e dispersa, mas os índios ficavam ligados às Missões através da terra e do casamento...

Com o tempo, os jesuítas foram ficando cada vez mais poderosos e influentes no Reino português e no Brasil. Na Colônia, além de explorarem as Drogas do Sertão na Amazônia e a erva-mate no Sul, ainda possuíam muitas fazendas de gado. Em 1759, o Marquês de Pombal, ministro do Rei D. José I, de Portugal, conseguiu a expulsão dos jesuítas de Portugal e seus domínios, inclusive e principalmente do Brasil. Com isso, os aldeamentos missionários caíram nas mãos dos administradores da Coroa, e estes se tornaram os novos exploradores do trabalho indígena.

Não demorou muito e a exploração das Drogas do Sertão entrou em declínio. A Amazônia permaneceria economicamente inexpressiva até os últimos anos do século XIX, quando ocorreu o período de valorização da borracha.

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Fazendo a História: as Sociedades Americanas e a Europa na Época Moderna. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1990. p. 127-129.

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